O grito

Você já ouviu o grito dos famintos? Ele não se materializa em som. Não há forças suficientes para que o desespero vença a barreira de dentes pobres e bambos, e se imponha como ato, como força, como som. A fome é silenciosa. Toda agonia é silenciosa.

As palavras gritam. Não obedecem as restrições semânticas do texto. Você já ouviu o grito das palavras? É o grito mais suave que se pode sentir. É quase silêncio. É quase agonia. É quase fome.

A quem grite com o leitor surdo; os lambões. A quem ouça o escritor mudo; os insatisfeitos. Tais atitudes não são silêncios. São precisões. O silêncio não é ouvir, não é pensar, não é se calar. O silêncio é ter fome. O silêncio é gritar.

O grito é palavra. Toda palavra é silêncio. Às vezes roucas, por vezes poucas. Mas sempre uma voz.


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