O grito
Você já ouviu o grito dos famintos? Ele não se materializa em som. Não há forças suficientes para que o desespero vença a barreira de dentes pobres e bambos, e se imponha como ato, como força, como som. A fome é silenciosa. Toda agonia é silenciosa.
As palavras gritam. Não obedecem as restrições semânticas do texto. Você já ouviu o grito das palavras? É o grito mais suave que se pode sentir. É quase silêncio. É quase agonia. É quase fome.
A quem grite com o leitor surdo; os lambões. A quem ouça o escritor mudo; os insatisfeitos. Tais atitudes não são silêncios. São precisões. O silêncio não é ouvir, não é pensar, não é se calar. O silêncio é ter fome. O silêncio é gritar.
O grito é palavra. Toda palavra é silêncio. Às vezes roucas, por vezes poucas. Mas sempre uma voz.
About this entry
You’re currently reading “O grito,” an entry on Palavras roucas
- Published:
- 25 25UTC Abril 25UTC 2008 / 12:54
- Category:
- Voz
- Tags:
No comments yet
Jump to comment form | comments rss [?] | trackback uri [?]